quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Quem responderá pela Terra? (Final)









Estas são algumas das coisas que os átomos de Hidrogênio fazem com 15 bilhões de evolução cósmica. Tem o som de mito épico mas é simplesmente uma descrição do cosmo conforme revelada pela ciência de nossa época, e nós que personificamos os olhos, ouvidos, pensamentos e sentimentos locais do cosmo, nós começamos finalmente a pensar sobre as nossas origens, o material estelar contemplando as estrelas, organizando coleções de dezenas de bilhões e bilhões e bilhões de átomos, contemplando a evolução da matéria, traçando aquele longo caminho pelo qual chegamos a consciência aqui no planeta Terra, e talvez, através do cosmo. Devemos lealdade ás espécies vivas e ao planeta, nós falamos pela Terra, a nossa obrigação de sobreviver e vicejar deve-se não apenas a nós mesmos, mas também a este cosmo antigo e vasto de onde viemos.
A maior emoção para mim é perceber que no pequeno período dos meus vinte anos, o impossível aconteceu, muros ideológicos foram quebrados, inimigos abraçaram-se e começaram a trabalhar juntos, a preocupação com o meio ambiente foi largamente aceito e começamos a diminuir drásticamente o número obceno de armas nucleares, talvez tenhamos afinal decidido escolher a vida, mas temos que percorrer anos-luz para assegurar esta escolha, mesmo depois de todas as campanhas, movimentos, reformas, muitas pessoas ainda se prendem a velhos hábitos, antigas tradições, depois da comunidade ciêntífica alertar as nações para os riscos do aquecimento global, a diminuição da camada de ozônio, as pessoas tem dado passos atenuantes, mas esses passos são pequenos e lentos de mais. Analizando as tempestades de areia na superfície de Marte, fritada pela luz solar, compreendemos a importância da atmosfera terrestre. Vendo o efeito estufa atemorizante de Vênus nos preocupamos com o aumento do efeito estufa na Terra. Explorando outros planetas, aprendemos a dar valor no nosso, só isso já justifica todo o dinheiro gasto na exploração espacial.
É nosso destino viver durante um dos capítulos mais perigosos e também um dos mais esperançosos da história humana, a nossa ciência e a nossa tecnologia propuzeram-nos uma questão profunda: Nós vamos aprender a usar estas ferramentas com sabedoria e perspicácia, antes que seja tarde? Nós vamos ver nossa espécie atravessar essa passagem difícil com segurança para que nossos filhos e netos aprofundem ainda mais a grande jornada de descoberta aos mistérios do cosmo?
Essas mesmas tecnologias de foguetes nucleares e de computadores que enviam nossas naves para além do planeta mais distante conhecido, também podem ser usadas para destruir nossa civilização global, exatamente a mesma tecnologia serve para o bem e para o mal. De fato é como se houvesse um deus que dissesse: "Eu coloquei dois caminhos diante de vocês, vocês podem usar sua tecnologia para se destruir ou para leva-los aos planetas e ás estrelas. Depende de vocês."


(Extraído e adaptado da série de Tv "Cosmos" de Carl Sagan)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Quem responderá pela Terra? (parte 5)

A cerca de 15 bilhões de anos no universo que conhecemos, ocorreu a explosão mais poderosa de todos os tempos, o universo expandiu-se, esfriou e escureceu, a energia condensou-se em matéria, em sua maior parte átomos de hidrogênio, e esses átomos acumularam-se em vastas nuvens que afastaram uma das outras e um dia viraram as galáxias. Dentro dessas galáxias nasceu a primeira geração de estrelas, incendiando a energia escondida na matéria, inundando o cosmo de luz, átomos de hidrogênio tinham feito sóis e luz estelar, naquela época não havia planetas para receber a luz, nem criaturas vivas para admirar o brilho dos céus, mas no fundo das fornalhas estelares a fusão nuclear estava criando os átomos mais pesados, carbono e oxigênio, silício e ferro, estes elementos, cinza deixada pelo hidrogênio, foram as matérias primas das quais os planetas e a vida surgiriam mais tarde. A princípio os elementos pesados estavam presos no coração das estrelas, mas estrelas imensas logo exauriram seu combustível e nos estertores da morte devolveram a maior parte de sua substância de volta para o espaço, o gás interestelar ficou enriquecido de elementos pesados. Na galáxia Via-lactea a matéria do cosmo foi reciclada em uma nova geração de estrelas, agora ricas em átomos pesados, um legado de suas antecessoras estelares, e no frio do espaço inter-estelar grandes nuvens turbulentas foram reunidas por gravidade e atiçadas pela luz das estrelas. Em suas profundezas os átomos pesados condensaram-se em grãos de poeira rochosa e gelo e em complexas moléculas baseadas em carbono, de acordo com as leis da física e da química, os átomos de hidrogênio tinham produzido a matéria da vida. Em outras nuvens, mais agregados imensos de gás e poeira formaram outras gerações de estrelas, enquanto novas estrelas eram formadas, minúsculas condensações de matéria agregaram-se perto delas, partículas discretas de rocha e metal, gelo e gás que se tornariam os planetas, e nestes mundos como em nuvens interestelares, moléculas orgânicas formaram-se feitas de átomos que tinham sido cozinhados dentro das estrelas. Nas poças e oceanos de muitos mundos, as moléculas eram destruídas pela luz do sol e montadas pela química, um dia entre essas esperiências naturais, surgiu uma molécula que era capaz de fazer cópias grosseiras de si mesma, com o passar do tempo a auto-copiagem tornou-se mais precisa, essas moléculas que copiam-se melhor produziram mais cópias, a seleção natural estava em curso, máquinas moleculares elaboradas tinham se desenvolvido. Lenta, imperceptivelmente, a vida começara. Coletivos de moléculas orgânicas evoluiram para organismos unicelulares, estes produziram colônias multicelulares, suas várias partes tornaram-se órgãos especializados, algumas colônias prenderam-se ao fundo do mar, outras nadaram livremente. Desenvolveram-se olhos, e agora o cosmo podia ver, coisas vivas seguiram para colonizar a terra, os répteis dominaram por um tempo, mas deram passagem para pequenas criaturas de sangue quente, com cérebros maiores, que desenvolveram a destreza e curiosidade sobre o seu meio ambiente, eles aprenderam a usar ferramentas, o fogo e a linguagem, a matéria estelar, a cinza da alquimia estelar, tinha chegado a consciência. Nós somos um modo do cosmo conhecer a si mesmo, somos criaturas do cosmo, sempre desejamos ardentemente saber nossas origens, entender a nossa conexão com o universo, como foi que tudo surgiu?
Toda cultura no planeta desenvolveu a sua própria resposta para a charada proposta pelo universo, toda cultura celebrou os ciclos de vida e natureza, há muitos meios diferentes de ser humano, mas um visitante extraterreste examinando as diferenças entre as sociedades humanas, acharia essas diferenças triviais se comparadas ás similaridades. Nós somos uma espécie, somos matéria estelar, colhendo luz das estrelas, nossas vidas, nosso passado e nosso futuro estão ligados ao sol, á lua e ás estrelas. Os nossos ancestrais sabiam que sua sobrevivência dependia do entendimento dos céus, eles construiram observatórios e computadores para predizer as mudanças das estações pelos movimentos dos céus, nós somos, todos nós, decendentes dos astronomos. A descoberta de que há ordem no universo, de que há leis da natureza, é a fundação do que a ciência constrói hoje. A nossa concepção do cosmos, toda a ciência e tecnologia modernas remontam as questões levantadas pelas estrelas, igualmente como há 400 anos, nós ainda não fazemos idéia do nosso lugar no universo, a longa jornada até esse entendimento, requereu tanto um respeito resoluto pelos fatos, quanto um encanto pelo mundo natural. Johannes Kepler escreveu: "Nós não perguntamos com que propósito útil os pássaros cantam, porque a música é o prazer deles, desde que foram criados para cantar." Similarmente, não devemos perguntar por que a mente humana dá-se ao trabalho de sondar os segredos dos céus, a diversidade dos fenômenos da natureza é tão grande e os tesouros ocultos nos céus são tão ricos, precisamente para que à mente humana jamais falte alimento fresco. É o direito hereditário de toda criança encontrar o cosmo renovado em cada cultura e cada idade, quando isso acontece conosco nós esperimentamos o profundo senso de admiração, os mais afortunados entre nós são guiados por professores, que através de seu encorajamento e seu exemplo, canalizam esta alegria, nós nascemos para nos deliciarmos no mundo, somos ensinados a distinguir nossos preconceitos da verdade, então, novos mundos são descobertos enquanto decriframos os mistérios do cosmo. A ciência é um empreendimento coletivo que abraça muitas culturas, e abarca gerações, em toda era e ás vezes em lugares dos mais improváveis há aqueles que desejam com grande paixão entender o mundo, não há como saber de onde virá a próxima descoberta, que sonho do olho da mente irá refazer o mundo. Esses sonhos começam como impossibilidades, outrora até ver um planeta através de um telescópio é um assombro, mas nós estudamos esses mundos, descobrimos como eles se deslocam em suas órbitas, e logo estávamos planejando viagens de descobertas além da Terra, e enviando exploradores robôs para os planetas e para as estrelas. Nós humanos desejamos estar conectados com nossas origens, então criamos rituais, a ciência é um outro modo de expressar esse desejo, ela também nos conecta com nossas origens e ela também tem seus rituais e seus mandamentos, sua única verdade sagrada é que não há verdades sagradas, todas as suposições devem ser analizadas críticamente, os argumentos das autoridades são inúteis, o que for inconsistente com os fatos, não importa o quanto gostemos, deve ser descartado ou então revisado, a ciência não é perfeita, ela é frequêntemente mal usada, é apenas uma ferramenta, mas é a melhor ferramenta que temos, com correção automática, sempre mudando, aplicável a tudo, com esta ferramenta nós conquistamos o impossível. Com os métodos da ciência, nós começamos a explorar o cosmo, pela primeira vez descobertas ciêntíficas são largamente acessíveis, nossas máquinas, os produtos de nossa ciência, estão agora além da órbita de saturno, uma espaçonave pioneira de reconhecimento descobriu vinte mundos novos, nós aprendemos a valorizar observações cuidadosas, a respeitar os fatos mesmo quando eles são inquietantes quando parecem contradizer a sabedoria convencional, os monges de canterburry registraram fielmente um impacto na lua e o povo Anasazi uma explosão de uma estrela distante, eles viram por nós como nós vemos por eles, vemos além deles só porque ficamos em pé em seus ombros, construímos sobre o que eles sabiam, nós dependemos da pesquisa livre e do livre acesso ao conhecimento, nós humanos vimos os átomos que constituem toda a matéria e as forças que esculpem este mundo e outros, descobrimos que as moléculas da vida são fácilmente formadas sob condições comuns através do cosmo, mapeamos as máquinas moleculares no coração da vida, descobrimos um microcosmo em uma gosta d'água, olhamos a corrente sanguínea e o nosso tempestuoso planeta para ver a Terra como um organismo único, descobrimos vulcões em outro mundo e explosões no sol, estudamos cometas das profundesas do espaço e rastreamos suas origens e destinos, ouvimos pulsares e procuramos outras civilizações, nós humanos botamos o pé em outro mundo, em um lugar chamado "mar da tranquilidade", uma conquista assombrosa para criaturas como nós, cujos primeiros passos com 3,5 milhões de anos estão preservados na cinza vulcânica no leste da Africa. Nós andamos bem longe...

...Continua.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Quem responderá pela Terra? (parte 4)

Uma das grandes revelações da idade da exploração do espaço é a imagem da Terra finita e solitária, de certo modo vulnerável, levando toda espécie humana através dos oceanos de espaço e tempo, mas esta é uma percepção antiga, no século III a.C o nosso planeta foi mapeado e precisamente medido por um cientista grego chamado Eratóstenes, que trabalhava no Egito.

Este era o mundo como ele o conhecia.
Eratóstenes era o diretor da grande biblioteca de Alexandria, o centro da ciência e do aprendizado no mundo antigo. Aristóteles tinha argumentado que a humanidade estava dividida entre gregos e o resto, que ele chamava de "bárbaros", e que os gregos deviam manter-se racialmente puros, ele ensinou que era adequado os gregos escravizarem outros povos, mas Eratóstenes criticou Aristóteles por seu chauvinismo cego, ele acreditava que havia o bom e o mal em toda nação. Os conquistadores gregos inventaram um novo deus para os egípcios, mas ele parecia notavelmente "grego", Alexandre foi retratado como um faraó em um aceno aos egípcios, mas na prática os gregos estavam confiantes em sua superioridade. Os protestos casuais do bibliotecário mal constituíam um desafio sério para os preconceitos predominantes, seu mundo era tão imperfeito quanto o nosso, mas os ptolomeus, os reis gregos do Egito que seguiram-se a Alexandre tinham pelo menos essa virtude, eles apoiavam o avanço do conhecimento. Idéias populares sobre a natureza do cosmos eram desafiadas, e algumas delas descartadas, novas idéias eram propostas e descobria-se que estavam mais de acordo com os fatos, havia propostas imaginativas, debates vigorosos, sínteses brilhantes e o tesouro resultante do conhecimento humano era registrado e preservado por séculos nas prateleiras, a ciência atingiu a maioridade nesta biblioteca. Os ptolomeus não reuniam conhecimento antigo apenas, eles apoiavam a pesquisa científica e geravam novo conhecimento, os resultados eram incríveis. Eratóstenes calculou precisamente o tamanho da Terra, ele a mapeou e argumentou que ela poderia ser circunavegada, Hiparco antecipou que as estrelas nasciam, deslocavam-se lentamente durante o curso de séculos e finalmente pereciam, foi ele quem primeiro catalogou as posições e magnitudes das estrelas para determinar se havia tais mudanças, Euclides escreveu um livro sobre geometria no qual os seres humanos aprenderam durante 23 séculos, ainda é uma grande leitura, cheia das provas mais elegantes, Galeno escreveu trabalhos básicos sobre cura e anatomia que dominaram a medicina até o renascimento, estes são apenas alguns exemplos, havia dúzias de grandes eruditos e centenas de descobertas fundamentais. Algumas dessas descobertas tem um toque distintamente moderno, Apolônio de Perga estudou a parábola e a elipse, curvas que hoje sabemos que descrevem os caminhos de objetos que caem em um campo gravitacional e de veículos espaciais viajando entre os planetas, Heron de Alexandria, inventou os motores a vapor e a engrenagem dos trens, ele foi o autor do primeiro livro sobre robôs. Imaginem como nosso mundo seria diferente se essas descobertas tivessem sido explicadas e usadas em benefício de todos, se a perspetiva humana de Eratóstenes tivesse sido largamente adotada e aplicada, mas não foi desse modo.
Alexandria era a maior cidade que o mundo já tinha visto, gente de todas as nações vinham aqui para viver, comercializar, aprender, em qualquer dia seus portos estavam abarrotados de mercadores, eruditos, turistas. Provavelmente foi aqui que a palavra "Cosmopolita" percebeu seu verdadeiro significado, um cidadão não apenas de uma nação, mas de todo o universo. Ser um cidadão do cosmo. Aqui estavam claramente as sementes do nosso mundo moderno, mas porque elas não criaram raízes e vicejaram? Por que em vez disso o ocidente dormiu milhares de anos na escuridão até Colombo, Copérnico e seus contemporâneos redescobrirem o trabalho feito aqui. Eu não posso dar uma resposta simples, mas isso eu sei. Não há registro em toda história da biblioteca de que qualquer um dos ilustres eruditos que trabalharam aqui tenha desafiado seriamente uma única suposição política, econômica ou religiosa da sociedade em que viviam, a permanência das estrelas foi questionada, a justiça da escravidão, jamais.
A ciência e o aprendizado eram em geral o refúgio dos poucos privilegiados, a vasta população desta cidade não tinha a mais vaga noção das grandes descobertas que estavam sendo feitas dentro destas paredes. Como poderia ter? As novas descobertas não eram explicadas nem popularizadas, o progresso feito aqui, pouco a beneficiava, a ciência não fazia parte de suas vidas, as descobertas na mecânica digamos ou na tecnologia a vapor, eram aplicadas principalmente no aperfeiçoamento de armas, no encorajamento da superstição, na diversão dos reis, os cientistas jamais pareceram compreender o enorme potencial das máquinas para libertar o povo do trabalho árduo e repetitivo. As grandes conquistas intelectuais da antiguidade tiveram poucas aplicações praticas, a ciência jamais capturou a imaginação da multidão, não havia contrapeso para a estagnação para o pessimismo, para a rendição mais abjeta ao misticismo, então quando depois de muito tempo a multidão foi para colocar fogo na biblioteca, não havia ninguém para impedi-la.
Eu vou contar sobre o final, é uma história sobre a ultima cientista a trabalhar neste lugar. Matemática, astrónoma, médica e diretora da Escola de Filosofia Neo-platônica em Alexandria, é uma gama extraordinária de conquistas para alguém em qualquer época, seu nome era Hipácia, ela nasceu nesta cidade em 370 d.C. Era uma época em que as mulheres essencialmente não tinham opções, elas eram consideradas propriedades, porém Hipácia foi capaz de mover-se livre e desinibidamente, por domínios tradicionalmente masculinos. Por todos os relatos ela possuía grande beleza e embora tivesse muitos pretendentes, não tinha interesse no casamento. A Alexandria do tempo de Hipácia, há muito tempo sob domínio Romano era uma cidade em grave conflito, a escravidão, o câncer do mundo antigo, tinha extraído da civilização clássica sua vitalidade, o crescimento da igreja cristã estava consolidando seu poder, e tentando erradicar a influência e a cultura pagãs, Hipácia ficou no foco, no epicentro de forças sociais poderosas. Cirilo o bispo de Alexandria a desprezava, em parte por causa de sua amizade íntima com o governador Romano, mas também porque ela era um símbolo do aprendizado e da ciência que eram largamente identificados pela igreja nos primórdios, como "paganismo". Em grande perigo pessoal, Hipácia continuou a lecionar e a publicar, até que no ano 415 d.C a caminho do trabalho ela foi atacada por uma multidão fanática de seguidores de Cirilo, eles a puxaram da carruagem, rasgaram suas roupas e tiraram a carne dos ossos com conchas afiadas, seus restos mortais foram queimados, seus trabalhos destruídos, seu nome esquecido, Cirilo foi feito santo.

A glória da biblioteca de Alexandria, não é nada além de memória, ela não existe. Os últimos restos da biblioteca foram destruídos um ano após a morte de Hipácia, é como se toda uma civilização tivesse passado por uma cirurgia cerebral radical auto infligida para que a maioria de suas memórias, descobertas, idéias e paixões, fossem irrevogavelmente eliminada. A perda foi incalculável, em alguns casos, sabemos apenas os títulos sedutores de livros que foram destruídos, na maior parte dos casos, não sabemos nem os títulos, nem os autores. Sabemos que nesta biblioteca havia cento e vinte e três peças diferentes de Sófocles, das quais apenas sete sobreviveram até nossa época, uma dessas sete é Édipo Rei. Números similares aplicam-se a obras perdidas de Ésquilo, Eurípedes, Aristófanes, é tão pouco quanto se as únicas obras sobreviventes de um homem chamado Willian Shakespeare fossem Coriolano e Um conto de inverno, embora soubéssemos que ele tinha escrito outras coisas altamente apreciadas em sua época, peças chamadas Hamlet, Macbeth, Sonho de uma noite de verão, Júlio César, Rei Lear... Romeu e Julieta.
A história está cheia de pessoas que por medo ou ignorância ou sede de poder, destruíram tesouros de valor imensurável que na verdade pertenciam a todos nós. Não devemos deixar isso acontecer de novo. Nós temos considerado a destruição de mundos e o fim de civilizações, mas há uma outra perspectiva pela qual medir os esforços humanos, eu vou contar uma história sobre o início...

(continua)

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Quem responderá pela Terra? (parte 3)


Toda pessoa que pensa, teme a guerra nuclear, e toda nação tecnológica a planeja, todo mundo sabe que ela é uma loucura e todo país tem uma desculpa. Há uma cadeia lúgubre de causalidade... Os alemães estavam trabalhando numa bomba no início da segunda guerra mundial, então os americanos tinham que fazê-la primeiro, se os norte-americanos tinham uma, os russos tinham que ter uma, depois os britânicos, os francêses, os chinêses, os indianos, os paquistanêses. Muitas nações agora colecionam armas nucleares, elas são fáceis de fazer, pode-se roubar material físsil de reatores nucleares, bombas atômicas tornaram-se quase uma indústria artesanal caseira. As bombas convencionais da segunda guerra mundial eram chamadas de "arrasa-quarteirão", preenchidas com 20 toneladas de TNT, destruíam um quarteirão. Todas as bombas jogadas em todas as cidades na segunda guerra mundial, somaram 2 milhões de toneladas de TNT, 2 megatons, Coventry, Rotterdam, Desdren e Tóquio, toda a morte que choveu dos céus entre 1939 e 1945... Cem mil arrasa-quarteirões, 2 megatons.
Hoje 2 megatons é o equivalente a uma única bomba termonuclear, uma bomba com a força destruidora da segunda guerra mundial. Mas há dezenas de milhares de armas nucleares, as forças de mísseis e bombardeios dos EUA e da Rússia tem ogivas apontadas para mais de quinze mil alvos designados, lugar algum do planeta está a salvo. A energia contida nessas armas, "gênios da morte", esperando pacientemente o esfregar das lâmpadas, totaliza muito mais de 10 mil megatons, mas com a destruição concentrada eficientemente não por 6 anos, mas por algumas horas, um arrasa-quarteirão pra cada família do planeta, uma segunda guerra mundial a cada segundo, com a duração de uma tarde preguiçosa. A bomba jogada em Hiroshima matou 70 mil pessoas, em uma troca nuclear completa, no paroxismo da morte global, o equivalente a 1 milhão de bombas de Hiroshima seria jogado no mundo todo, mas em tal troca nem todo mundo morreria com a explosão, com o incêndio ou com a radiação imediata, haveria outras agonias... a perda de entes queridos, as legiões de queimados, cegos e multilados, ausência de cuidados médicos, doença, praga, radiação de longo prazo envenenando o solo e a água, a ameaça de tumores, partos de natimortos e crianças mal formadas e o sentido inútil de uma civilização destruída por nada, o conhecimento de que poderíamos ter evitado, e não evitamos...
O equilibrio global do terror, em que os EUA e a URSS foram pioneiros, mantém até hoje reféns todos os cidadãos do mundo, cada país sonda persistentemente os limites da tolerância do outro, como a crise dos mísseis cubanos, o teste de armas anti-satélites, o Vietnã e as guerras do afeganistão são exemplos da época, os sistemas militares hostís estão presos em um horripilante abraço mútuo, um precisa do outro, mas o equilibrio do terror é um equilibrio delicado, com muita pouca margem para erros de cálculo.
E o mundo se empobrece gastando mais de 1 trilhão de dólares por ano em preparativos para a guerra e empregando talvez metade dos ciêntistas e alto tecnólogos do planeta em esforços militares. Como explicaríamos tudo isso a um observador extra terrestre imparcial? Que relatório faríamos do nosso gerenciamento do planeta Terra? Nós ouvimos a argumentação feita pelas super potências, sabemos quem responde pelas nações, mas quem fala pela espécie humana? Quem responderá pela Terra?


De uma perspectiva extra terrestre nossa civilização global está claramente a beira do fracasso na tarefa mais importante que enfrenta, preservar a vida e o bem estar dos seus habitantes e a futura habitabilidade do planeta. Mas se queremos conviver com a probabilidade crescente de uma guerra nuclear, de um colapso ambiental e de extinções em massa, não deveriamos querer também explorar vigorosamente todos os meios possíveis para evitar a guerra nuclear e a catástrofe ambiental? Não deveriamos considerar em toda nação grandes mudanças nos modos tradicionais de fazer as coisas? Uma reestruturação fundamental de instituições econômicas, políticas, sociais e religiosas? Nós chegamos a um ponto em que não pode haver mais interesses especiais ou casos especiais, as armas nucleares e a crise ambiental ameaçam toda forma de vida na Terra. Mudanças fundamentais na sociedade ás vezes taxadas como "nada práticas" ou contra a "natureza" humana, como se a guerra nuclear fosse prática ou houvesse uma só natureza humana... Mas mudanças fundamentais podem claramente ser feitas, estamos cercados por elas. Nos dois ultimos séculos a escravidão abjecta que estava entre nós a milhares de anos, quase foi totalmente eliminada em uma estimulante revolução mundial, as mulheres maltratadas sistematicamente por milênios estão ganhando gradualmente os poderes político e econômico tradicionalmente negados a elas, a ética atual não se limita somente à espécie humana e gradualmente as pessoas adotam uma alimentação vegetariana, reconhecendo que a paz começa em abrir mão do sofrimento alheio e algumas guerras de agressão foram impedidas ou encurtadas recentemente por causa de uma repugnância sentida pelo povo das nações agressoras.
Os velhos apelos raciais, sexuais, religiosos e chauvinistas e o fervor nacionalista raivoso estão começando a não dar certo, desenvolve-se uma consciência que vê a Terra como um organismo único e reconhece que um organismo em guerra consigo mesmo está condenado. Nós somos um planeta...

(continua)

Quem responderá pela Terra? (parte 2)

Na visão de um sonho, uma vez imaginei-me procurando outras civilizações no cosmo, entre cem bilhões de galáxias e um bilhão de trilhões de estrelas, vida e inteligência deviam ter surgido em muitos mundos.
Alguns mundos são desertos e desolados, neles a vida jamais começou ou pode ter se extinguido em alguma catástrofe cósmica, pode haver mundos ricos em vida mas ainda não evoluída para a inteligência e a alta tecnologia, pode haver civilizações que alcançaram a tecnologia e então a usaram prontamente para destruírem-se, e talvez haja também seres que aprendem a viver com sua tecnologia e com eles próprios, seres que resistem e viram cidadãos do cosmos. Imerso nestes pensamentos, encontrei-me chegando em um mundo que era claramente desabitado, um mundo que eu havia visitado antes, eu o vi abarcado por luz, eu reconheci a assinatura da inteligência, mas de repente, escuridão, total e absoluta.
Em meu sonho eu pude ler o livro dos mundos, um computador galáctico, uma vasta enciclopédia de um bilhão de planetas dentro da via láctea, o que o computador galáctico poderia me dizer sobre este mundo agora sombrio?

Eles devem ter sobrevivido a uma catastrofe anterior, "contato iniciado localmente", talvez tenham sido suas transmissões de televisão, sua biologia era diferente da nossa, "Alta tecnologia", eu fiquei imaginando pra que aquelas luzes? Deve ter havido sinais de que eles estavam com problemas, " probabilidade de sobrevivência em um século: menos de 1%". Não é uma chance muito boa... "Comunicações interrompidas".
Sua sociedade mundial falhou, eles cometeram o último erro. Eu senti uma grande vontade de voltar para a Terra. As transmições de televisão da Terra, passaram rápidas por mim, expandindo-se de nosso planeta a velocidade da luz, quanto mais perto de casa, mais recentes as transmições, eu precisava saber o que tinha acontecido...
Então, de repente, silêncio... total e absoluto, mas o sonho ainda não havia acabado. Nós destruimos a nossa casa? O que fizemos com a Terra? Havia muitos meios da vida perecer em nossas mãos, nós haviamos envenenado o ar e a água, tinhamos devastado a terra, mudamos o clima, pode ter sido uma praga, ou guerra nuclear.

Eu lembrei-me do computador galáctico, o que ele diria sobre a Terra? Lá estava nossa região da galaxia, lá estava o nosso mundo, eu tinha encontrado o verbete "Terra" - "Humanidade - 3º a partir do sol", eles ouviram as nossas transmissões de televisão e pensaram que era uma solicitação para a cidadania cósmica, a nossa tecnologia tinha crescido enormemente, eles entenderam isso. "200 estados nacionais - 6 forças globais - Potencial para virar um planeta unificado - probabilidade de sobrevivência em 1 século, menos de 1% - Comunicações interrompidas - Doses de raios neutrons e gamas aproximam da letalidade para os organismos vivos".
Então foi guerra nuclear, uma troca nuclear completa, não haveria mais grandes perguntas, nem mais respostas, nunca mais um amor ou uma criança, descendente algum para lembrar de nós e orgulhar-se, nem viagens as estrelas, nem canções da Terra. Eu vi o leste africano e pensei, há poucos milhares de anos nós seres humanos demos os nossos primeiros passos ali, nosso cérebro cresceu e mudou, as partes antigas começaram a ser guiadas pelas partes novas, e isto nos fez humanos, com compaixão, percepção e razão, mas em vez disso nós ouvimos aquela voz antiga dentro de nós aconselhando o medo, a territorialidade, e a agressão, nós aceitamos os produtos da ciência, rejeitamos seus métodos. Talvez os répteis desenvolvam a inteligência mais uma vez, talvez um dia haja civilizações de novo na Terra... talvez haja vida... talvez haja inteligência, mas não haverá mais seres humanos, não aqui, não em um bilhão de mundos...

(continua)

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Quem responderá pela Terra? (Parte 1)

"Conclamo hoje céu e terra para testemunharem contra ti, eu coloquei vida e morte perante ti, bênção e maldição, e escolherá vida para que viva tu e teus descendentes."
(Dt 30;19)


Há mais de 200 anos no golfo do Alasca, em um lugar chamado Baía de Lituya, duas culturas que não se conheciam tiveram um primeiro encontro.
O povo Tlingit vivia mais ou menos como seus ancestrais viviam há milhares de anos, eles eram nômades viajando sempre de canoa entre inúmeros locais de acampamento, onde pegavam peixes abundantes e ostras do mar e os trocavam com as tribos vizinhas. O criador a quem eles veneravam era o "deus corvo" a quem eles representavam como uma enorme ave preta de asas brancas, e num dia de julho de 1786 o deus corvo apareceu.
Os Tlingit ficaram apavorados, eles sabiam que quem olhasse diretamente para o deus, viraria pedra. Do outro lado do planeta vinha uma expedição liderada pelo explorador francês Jean-François de La Pérouse, foi na verdade a viagem cientifica mais elaboradamente planejada do século 18, que foi enviada para circundar o mundo para reunir conhecimento sobre geografia, história natural e povos de terras distantes. Mas para os Tlingits, cujo mundo estava confinado às ilhas e enseadas do sul do Alasca, esse grande navio só podia ter vindo dos deuses. Houve um entre eles que ousou olhar mais profundamente, era um velho guerreiro e estava quase cego, disse que sua vida estava quase no fim, para o bem comum ele se aproximaria do corvo para saber se o deus iria realmente transformar seu povo em pedra. Ele partiu para sua própria viagem de descoberta para confrontar o fim do mundo. O velho olhou fixamente para o corvo e viu que ele não era um grande pássaro do céu, mas o trabalho de homens como ele mesmo, este primeiro encontro revelou-se pacífico, os homens da expedição La Pérouse tinham ordens estritas para tratar com respeito qualquer povo que pudessem descobrir, uma política excepcional para sua época e depois dela, La Pérouse e os Tlingits trocaram bens e depois o estranho navio zarpou para jamais voltar.
Nem todos os encontros entre nações foram tão pacíficos. Antes de 1519 os Astecas do México jamais tinham visto uma arma e também acreditavam a princípio que seus visitantes tinham vindo do céu.
Os espanhóis comandados por Cortez não estavam limitados por nenhuma ordem formal contra violência, suas verdadeiras naturezas e intenções logo ficaram claras. Ao contrário da expedição La Pérouse, os conquistadores não buscavam conhecimento, mas ouro. Eles usaram suas armas superiores para pilhar, e matar, em sua loucura eles destruíram uma civilização. Em nome da devoção, zombando da religião dos conquistados, os espanhóis destruíram totalmente uma sociedade com arte, astronomia, arquitetura iguais a qualquer coisa na Europa. Nós desprezamos os conquistadores espanhóis por sua crueldade e miopia, por escolherem a morte. Nós admiramos La Pérouse e os Tlingit por sua coragem e sabedoria, por escolherem a vida.
A escolha ainda é nossa, mas a civilização agora em risco, é a humanidade toda. Como os antigos criadores de mitos sabiam, nós somos filhos igualmente da terra e do céu, em nossa ocupação deste planeta nós acumulamos uma bagagem evolutiva perigosa, propensão a agressão e ao ritual, submissão aos lideres, hostilidades com forasteiros, e tudo isso põe a nossa sobrevivência em dúvida, mas nós também adquirimos compaixão pelos outros, amor por nossos filhos, desejo de aprender com a história e com a experiência, e uma grande, elevada, apaixonada inteligência, as ferramentas claras para nossa contínua sobrevivência e prosperidade.Que aspecto da nossa natureza vai prevalecer é incerto, particularmente quando as nossas visões e perspectivas estão presas a uma pequena parte do pequenino planeta Terra, mas lá em cima no cosmo uma perspectiva inevitável aguarda, as fronteiras nacionais não são evidentes quando observamos a Terra do espaço, identificações fanáticas, étnicas, religiosas ou nacionais são um tanto difíceis de apoiar quando vemos o nosso planeta como um frágil crescente azul encolhendo para virar um insignificante ponto de luz contra o bastião e cidadela das estrelas. Ainda não há sinais óbvios de inteligência extra terrestre, e isto nos faz imaginar se civilizações como a nossa correm inevitável, precipitadamente para a destruição, eu sonho com isso... e às vezes são pesadelos...(Continua)

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Amazônia: Carnaval ou Quaresma?


Por João Meirelles Filho, Diretor Geral do Instituto Peabiru

Para os cristãos o carnaval é o momento da ruptura, onde tudo pode, a folia sem limites. A quaresma, que lhe segue, é a quarentena da comiseração, do sacrifício, da meditação. A palavra carnaval origina-se do latim medieval, de "carne levare" - abstenção a carne.

A Amazônia dos últimos 40 anos, desde o golpe militar de 1964, é a Amazônia do tudo pode, do carnaval - pode matar índio, pode expulsar caboclo e quilombola, pode grilar terra, pode roubar madeira, pode abrir pasto pra boi, pode garimpar ouro, pode plantar soja, pode transformar castanhal em pasto. Tudo pode.

Deu no que deu: 70 milhões de hectares desmatados para pastarem os bois: mais que a soma dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo juntos!

Para que? Para gerar pífios 0,4% do PIB do Brasil, menos de R$ 10 bilhões, uma renda insignificante, seja pela enorme evasão fiscal, seja por uma atividade de baixa lucratividade e que nem aos pecuaristas vale a pena, que gera pouco menos de 200 mil empregos e não agrega valor à Amazônia. Mesmo a Amazônia nada significa à economia do Brasil: a renda anual é de R$ 71,8 bilhões, 3,4% do PIB do país.

Para a Amazônia só ficam os troféus - campeã mundial de desmatamentos e queimadas, campeã de escravização de mão de obra, campeã de desrespeito aos direitos humanos, campeã de exclusão digital, de doenças tropicais, de localidades sem bibliotecas.

Ao mesmo tempo, em quatro décadas, o Brasil transferiu 1/3 de sua boiada para a Amazônia e, nós, calados, assistimos a tudo sem nos indignarmos.

Hoje discutimos assuntos de segunda importância: se a Amazônia deve ter agricultura como soja ou cana-de-açúcar, que, juntas, não ocupam 5 milhões de hectares. Enquanto isto não tratamos do grande problema da Amazônia, e do Brasil: a pecuária bovina, que ocupa 200 milhões de hectares do país e 70 milhões de hectares na Amazônia.

O boi é o carrapato do Brasil. Suga nossa seiva, nossa selva. O boi suga nossa inteligência, nossa capacidade de pensar, nossa capacidade de nos expressarmos enquanto Nação, nos encouraça - o Brasil é um pasto cercado de arame farpado por todos os lados.

A população da Amazônia, como sempre, nem de carne de qualidade e a baixo preço se beneficia - a carne é mais cara que no Sudeste, de qualidade duvidosa e origem incerta (boa parte é oriunda de abate clandestino, o boi-mato). De toda carne da Amazônia só 15% fica na região. O restante é enviado aos outros retiros do Brasil: São Paulo e o Sudeste devoram a Amazônia. De cada três bifinhos mastigados no Brasil, pelo menos um vem da Amazônia. Você já comeu a Amazônia hoje?

São mais de 75 milhões de cabeças de gado bovino na Amazônia. Em 1964 eram pouco mais de 3 milhões. Em 2020, se nada for feito, serão 200 milhões de cabeças.

Destas 75 milhões, pelo menos 10 milhões são de bois piratas - bois sem registro, sem vacina, sem controle, boi que não paga imposto, boi dentro de terra indígena e parque, que os donos escondem no fundo das invernadas, comercializados sem ninguém saber. A Secretaria da Receita Federal ao não revisar o Imposto Territorial Rural e o anexo 6 do imposto de renda - o formulário da atividade rural -perpetua esta situação.

Para piorar, a pecuária da Amazônia gera desmatamento e queimadas, que tornam o Brasil um dos campeões do aquecimento global. Setenta e cinco por cento da contribuição brasileira ao efeito estufa vem do churrasco pirotécnico amazônico. Você cidadão gasta mais carbono ao comer seu bifinho que com o uso de veículos automotivos ou passagens aéreas.

O governo insiste nesta conversa de controlar desmatamentos e queimadas e se comove no teatro de anunciar as cifras do ano. No entanto, esta medição é como verificar a febre do doente. A causa, mesmo, ninguém discute, especialmente em currais eleitorais de um Congresso Nacional, Assembléias Estaduais e Câmaras Municipais eminentemente pró-pecuaristas.

A verdadeira causa da destruição da Amazônia é o forte crescimento do consumo de carne no último meio século. E o Brasil oferece a Amazônia para ser o grande curral do planeta. Além do sambódromo do Rio e do bumbódromo de Parintins, agora a Amazônia é o bifódromo do Planeta.


A Amazônia tem água barata, tem terra barata, tem mão-de-obra barata e tem pouca fiscalização. Tanto faz se a produtividade é baixa (0,7 cabeças/hectare e menos de 100 kg de proteína animal/ha/ano), se é preciso usar agrotóxico no lombo dos bois, se a biodiversidade e a sociodiversidade são ignoradas, ou se o boi destrói as micro-bacias e polui o maior manancial de água doce do Planeta. Não há, em toda a Amazônia uma única propriedade de pecuária que cumpra 100% da lei brasileira.

Provavelmente, o que se queima de madeira, o que se desvia na festa da evasão fiscal, o que se perde por não se contabilizar e cobrar pelos serviços ambientais, e o que se desperdiça de recursos naturais, seja muitas vezes superior aos ridículos R$ 10 bilhões gerados pela pecuária bovina na Amazônia (comparem com os números da crise financeira global).

Além do mais, como somos um país de generosos, nossos bancos oficiais, o BNDES e o Banco da Amazônia à frente, com o dinheiro suado do contribuinte, são pródigos em ceder créditos vantajosos aos pecuaristas e frigoríficos (são mais de R$ 2 bilhões) e nosso governo apóia o IFC - International Finance Corporation (do Banco Mundial), quando empresta dinheiro (US$ 90 milhões) ao grupo Bertin para transformar a Amazônia em bife. Este grupo é tão sofisticado que, recentemente, foi multado por não conseguir sequer controlar seus efluentes das modernas instalações industriais do matadouro de Marabá, Pará.

As próximas gerações não nos perdoarão por tamanho desprezo pela Amazônia e seus habitantes. Seremos aquela geração que preferiu trocar a Amazônia por mais um bifinho e um saco de carvão. Quando a próxima geração chegar teremos perdido metade, ou mais, da Amazônia porque temos preguiça de tratar o assunto com seriedade.

O que devem pensar de nós o restante do mundo quando nos vêem, pacientemente, transformar a maior floresta tropical do Planeta em picadinho? Será que não pensam assim: como podem os brasileiros, tão alegres no Carnaval, tão simpáticos, tão bonzinhos e inteligentes, aceitar entregar a Amazônia por tão pouco?

Como compreender que emprestamos imensas terras para zelosos fazendeiros, que deveriam servir como imensos castanhais e fontes eternas de madeira, e no fim do dia, há só currais e bois marcados a ferro com seus nomes.

Como entender a política de reforma agrária que transforma mais de 10 milhões de hectares de 3,6 mil projetos de assentamentos da Amazônia em pastos para boi, serrarias ilegais e carvoarias, e mantém na miséria a imensa maioria dos assentados?

Aceitemos nossa reles condição: somos os escravos da pecuária. A pecuária é o principal motor de destruição do Brasil. Foi ela que destruiu a Mata Atlântica, o Cerrado, a Caatinga e agora devora a Amazônia. O estado de São Paulo, famoso por seus canaviais, ainda tem mais terra com boi que para cana. Toda a agricultura do Brasil não ocupa mais que 58,1 milhões de hectares (49 milhões de hectares em grãos (culturas anuais), 6,7 milhões em cana, 2,4 milhões ha em café (IBGE, jan. 2008), outros 5 milhões de hectares são com outras culturas (mandioca, algodão etc.) e há 7 milhões de hectares em florestas plantadas. Conclusão: o Brasil ocupa menos de 70 milhões de hectares com agricultura (8,2% do território nacional), enquanto o carrapato da pecuária se refestela na sua incompetência e já engole 25% do seu e do meu Brasil e agora quer avançar sobre a Amazônia e tomar 50% do Brasil.

Em termos mundiais a situação é ainda mais grave. A pecuária (e a área necessária para produzir comida pra boi) ocupa 40% das terras aráveis do Planeta (FAO, 2007). Isto porque a humanidade escolheu o boi como uma de suas principais fontes de proteína animal. O boi, o pior conversor de energia que existe, precisa comer 7 kg de cereal para produzir 1 kg de carne. A comida que alimenta os boizinhos daria para saciar a fome de todo o planeta e sobraria arroz para o dia seguinte.

O problema é que o consumo de carne cresce de maneira astronômica. Enquanto o argentino e o norte-americano comem mais de 60 kg de carne bovina por ano, o brasileiro come mais de 36 kg e o chinês, magros 5 kg/ano. Se os chineses desejarem (e querem muito) dobrar seu consumo de carne, não há boi no planeta para sacia-los e aí teremos que decidir: vamos alimentar bois para os pratos chineses ou vamos tentar manter o angu do planeta Terra funcionando?

E o Brasil, continuará a ser este grande curral, de fartas churrascarias ou faremos algo mais inteligente e sustentável sobre nosso futuro? É sobre esta Amazônia que precisamos discutir: a Amazônia sustentável, não a dos pecuaristas, pistoleiros, grileiros e ladrões de madeira: até quando seremos reféns desta porteira aberta /fronteira aberta? Até quando vamos ignorar o que se passa dentro das milhares de fazendas, onde tudo pode?

Será que não somos mais competentes em gerar renda por meios mais sustentáveis, a partir de sua biodiversidade, sociodiversidade e recursos naturais e produzir mais que R$ 10 bilhões?

Se só a Vale, uma única empresa privada, pretende investir R$ 20 bilhões na Amazônia em 5 anos, será que nós, brasileiros, não conseguimos decidir o nosso futuro?

Será que não conseguimos uma combinação de atividades sustentáveis a partir da floresta em pé, da recuperação das áreas degradadas com culturas permanentes, de uma aqüicultura cabocla, de uma mineração inteligente e de ecoturismo para valer?

O Brasil sairá da adolescência quando perceber que o boi é o carrapato que suga todas as nossas forças. O boi é o carrapato que faz um verdadeiro carnaval com a gente: tem mais boi que gente neste Brasil.

Está na hora de reaprendermos a ser brasileiros. Cidadania começa em nossos pequenos atos: o que decidimos comer, por exemplo. Está na hora de pilotarmos o carrinho de supermercado cientes de que cada escolha nossa constrói ou destrói a Amazônia. Se para o dono do supermercado tanto faz de onde vem a carne, para você talvez seja diferente. Pergunte, exerça seu direito de consumidor e cidadão.

Prepare a sua fantasia para o próximo carnaval - de curupira, saci-pererê - xô boi feio, o carnaval do ano inteiro - do açaí, do cupuaçú, do ecoturismo, da madeira certificada, do turismo consciente, da Amazônia digna e respeitada. Adeus ao carnaval do Brasil da boiada sem fim.




Fonte: Fórum Amazônia Sustentável